Pular para o conteúdo principal

A AIDS não é uma doença superada, diz Françoise Barré-Sinoussi



Ci­en­tista que des­co­briu o HIV (cau­sa­dor da AIDS) há 30 anos fala so­bre qua­li­dade de vida e pers­pec­ti­vas de uma cura definitiva






Francoise Barre Sinussi ajudou a isolar e identificar o vírus da AIDS






Fran­çoise Barré-Sinoussi ti­nha 35 anos quando, ao lado do tam­bém vi­ro­lo­gista Jean-Claude Cher­mann e sob a di­re­ção de Luc Mon­tag­nier, re­a­li­zou uma des­co­berta que mu­da­ria para sem­pre a his­tó­ria da Me­di­cina e a vida de mi­lhões de pes­soas em todo o mundo: o HIV, ví­rus cau­sa­dor da AIDS.


Na segunda-feira pas­sada, dia 20, o feito ci­en­tí­fico re­a­li­zado no Ins­ti­tuto Pas­teur, em Pa­ris, que ren­deu à pes­qui­sa­dora o Prê­mio No­bel de Me­di­cina de 2008, com­ple­tou 30 anos. Em en­tre­vista ao Es­tado, Fran­çoise faz um ba­lanço das três dé­ca­das em que a do­ença de­sa­fia a ci­ên­cia. No pe­ríodo, pes­qui­sa­do­res do mundo in­teiro saí­ram da es­taca zero e ob­ti­ve­ram avan­ços con­cre­tos como o AZT, me­di­ca­mento que evi­tou a trans­mis­são do ví­rus da mãe ao bebê em 1994, e o co­que­tel an­tir­re­tro­vi­ral, cri­ado em 1996, que re­du­ziu a mor­ta­li­dade dos pa­ci­en­tes em 85%.


A AIDS, po­rém, con­ti­nua uma ame­aça. Trans­for­mada em do­ença crô­nica em paí­ses de­sen­vol­vi­dos, mata em massa nas re­giões po­bres. Para Fran­çoise, deve-se se es­cla­re­cer: a AIDS não foi su­pe­rada nem o HIV, ven­cido. “Ainda morre-se muito de AIDS”, diz a pes­qui­sa­dora, que con­si­dera paí­ses como o Cam­boja — e não o Bra­sil — exem­plo mun­dial no com­bate à doença.


Que ba­lanço a se­nhora faz des­ses 30 anos de com­bate à AIDS?


Os mai­o­res avan­ços nes­ses 30 pri­mei­ros anos são, em pri­meiro lu­gar, o de­sen­vol­vi­mento de tes­tes de di­ag­nós­tico cada vez mais efi­ci­en­tes — hoje po­de­mos até fazê-los em casa, embora


English: IPSF HIV/AIDS Campaign Logo


com ne­ces­si­dade de acom­pa­nha­mento. Em se­gundo lu­gar, o tra­ta­mento, que traz be­ne­fí­cios imen­sos ao pa­ci­ente. Hoje, nos paí­ses ri­cos po­de­mos fa­lar da AIDS como uma do­ença crô­nica. Nos paí­ses po­bres, in­fe­liz­mente, mesmo com os pro­gres­sos, mais de 50% dos pa­ci­en­tes não têm acesso ao tra­ta­mento. Por fim, além des­ses dois avan­ços, há o fato de que o tra­ta­mento hoje serve tam­bém como prevenção.


Esse é um ponto im­por­tante: o tra­ta­mento é efi­ci­ente e tam­bém serve para a pre­ven­ção. Essa é uma es­pe­rança, não?


Sim, o tra­ta­mento se pro­vou muito efi­ci­ente, por exem­plo, no caso da trans­mis­são da mãe ao fi­lho, por ser ca­paz de pre­ve­nir a in­fec­ção na cri­ança. Hoje sa­be­mos tam­bém que as pes­soas in­fec­ta­das e em tra­ta­mento trans­mi­tem o ví­rus ape­nas em ca­sos ra­ros. Se os por­ta­do­res do HIV fo­rem tra­ta­dos em tempo, po­de­mos re­du­zir em mais de 95% o risco de in­fec­ção dos par­cei­ros. É uma con­quista im­por­tante. Ou­tra é o de­sen­vol­vi­mento do tra­ta­mento como pre­ven­ção. Tanto o gel mi­cro­bi­cida para mu­lhe­res quanto a in­ges­tão de me­di­ca­mento, am­bos an­tes da re­la­ção se­xual, po­dem evi­tar a in­fec­ção. Houve mui­tos pro­gres­sos em ter­mos de tra­ta­mento e de pre­ven­ção em 30 anos.


Mas não é uma luta ven­cida, certo?


Não, a AIDS não é uma do­ença su­pe­rada. Ainda se morre muito de AIDS, em es­pe­cial em paí­ses po­bres, mas tam­bém em ri­cos, como a França. Na mé­dia mun­dial, en­tre 50% e 60% das pes­soas in­fec­ta­das com HIV por­tam o ví­rus sem sa­ber. Quando eles che­gam do­en­tes, são aten­di­dos já muito tarde. Logo, um dos de­sa­fios de hoje é o exame de de­tec­ção, e a mí­dia tem um pa­pel fun­da­men­tal de in­ci­tar o pú­blico a fa­zer o exame para, em caso po­si­tivo, se tra­tar o mais rá­pido possível.


Há al­guns anos paí­ses como o Bra­sil não fa­zem mais cam­pa­nhas de massa para a re­a­li­za­ção des­ses exa­mes por­que não têm con­di­ções de aten­der to­dos os even­tu­ais pacientes..


Essa si­tu­a­ção mudou?


Creio que a si­tu­a­ção es­teja evo­luindo no mundo in­teiro. O Bra­sil se­gue ou vai se­guir essa ten­dên­cia. Os Es­ta­dos Uni­dos fa­lam em pro­por sis­te­ma­ti­ca­mente o teste HIV, e o mesmo acon­tece na França. Há um teste hoje que se pode fa­zer como se faz um de gra­vi­dez. Nos EUA, ele já foi apro­vado. Na França, o Con­se­lho Na­ci­o­nal de AIDS o apro­vou, mas com a con­di­ção de um acom­pa­nha­mento por te­le­fone. Afi­nal, não é o mesmo de fa­zer um teste de gravidez.


A se­nhora evo­cou nesta se­mana a pers­pec­tiva de uma ge­ra­ção li­vre da AIDS, as­sim como ti­ve­mos uma sob esse risco. Essa hi­pó­tese é plausível?


Em prin­cí­pio, sim. Se fosse pos­sí­vel che­gar a to­das as pes­soas por­ta­do­ras do ví­rus em todo o mundo e as co­lo­cás­se­mos sob tra­ta­mento, ve­ría­mos a epi­de­mia de­cres­cer de forma pro­gres­siva até che­gar­mos a uma ge­ra­ção li­vre da AIDS em 2050. Há mo­de­los ma­te­má­ti­cos que o mos­tra­ram, e esse é o so­nho que de­ve­mos per­se­guir. Mas, na re­a­li­dade, é di­fi­cí­limo lo­ca­li­zar to­dos os por­ta­do­res de HIV, em es­pe­cial em zo­nas ru­rais. Na prá­tica, o que po­de­mos fa­zer de mais con­creto é fa­zer a epi­de­mia re­cuar com o acesso cor­reto ao tratamento.


O tra­ta­mento tam­bém pre­cisa ser desenvolvido?


Nos pri­mei­ros 30 anos de­sen­vol­ve­mos vá­rias fer­ra­men­tas para lu­tar con­tra o HIV, o que nos deu tempo de pen­sar em como será o com­bate à do­ença no fu­turo. O fato é que ainda pre­ci­sa­mos de muita pes­quisa. Tudo parte dela para ter­mos a es­tra­té­gia te­ra­pêu­tica de ama­nhã ou a va­cina ou ainda no­vos me­ca­nis­mos de pre­ven­ção. Não é sim­ples: en­fren­ta­mos um ví­rus muito com­plexo e muito va­riá­vel, que es­capa de tra­ta­men­tos e da de­fesa imu­no­ló­gica. A pes­quisa custa caro, e es­ta­mos em uma si­tu­a­ção de crise in­ter­na­ci­o­nal. Ainda as­sim, não po­de­mos de­sis­tir. Ao con­trá­rio, é pre­ciso que re­mo­bi­li­ze­mos a co­mu­ni­dade in­ter­na­ci­o­nal para de­sen­vol­ver es­sas no­vas ferramentas.


A qua­li­dade de vida dos pa­ci­en­tes é o de­sa­fio mais ur­gente? Quais são as pers­pec­ti­vas de avanço nos pró­xi­mos dez anos?


Nos pró­ximo dez anos, a pers­pec­tiva é me­lho­rar a qua­li­dade de vida e per­mi­tir que eles in­ter­rom­pam o tra­ta­mento, o que evi­ta­ria tam­bém as com­pli­ca­ções de longo prazo. Há um pe­queno por­cen­tual de pa­ci­en­tes, em torno de 10%, que no longo prazo de­sen­vol­vem com­pli­ca­ções gra­ves, como cân­cer e do­en­ças car­di­o­vas­cu­la­res ou li­ga­das ao en­ve­lhe­ci­mento pre­coce. Isso nos mos­tra que pre­ci­sa­mos de es­tra­té­gias te­ra­pêu­ti­cas me­nos pesadas.


AIDS

Toda vez que você dorme com al­guém, dorme com a his­tó­ria dela.
Cuide-se, use cam­si­nha.
A vida é me­lhor sem AIDS





 


Enhanced by Zemanta


A AIDS não é uma doença superada, diz Françoise Barré-Sinoussi

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Grupo New Hit e o Caso de Estupro: as meninas estão isoladas e os responsáveis livres

Grupo New Hit e o Caso de Estupro: as meninas estão isoladas e os responsáveis livres http://www.soropositivo.net.br/hiv-aids-hpv-hepatite/wp-content/uploads/2012/10/new-hit.jpg A se­cretária na­ci­o­nal de En­fren­ta­men­to à Vi­olência Con­tra as Mu­lhe­res, da Se­cre­ta­ria da Pre­sidência da Repúbli­ca, Apa­re­ci­da Gonçal­ves, dis­se que as me­ni­nas estão iso­la­das e os res­ponsáveis li­vres. —É im­por­tan­te que es­se... %TAGS%

Chá verde ''pode ajudar no combate ao HIV'', diz estudo

Chá verde ''pode ajudar no combate ao HIV'', diz estudo Chá verde “pode ajudar no combate ao HIV”, diz estudo   Chá verde foi ligado à vários benefícios à saude Consumir chá verde pode ajudar no combate contra o HIV, o vírus da Aids, de acordo com uma nova pesquisa. Cientistas britânicos e americanos... %TAGS%

Glaxo 'minimizou' alerta de ataque cardíaco de anti-retroviral, diz tablóide inglês the independent

Glaxo 'minimizou' alerta de ataque cardíaco de anti-retroviral, diz tablóide inglês the independent , Agência de Notícias da Aids Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano:     14/MAIO/08     13/5/2008 – 15h20 A multi-nacional GlaxoSmithKline (GSK) minimizou um alerta sobre o crescente número de pessoas que... %TAGS%